transversal.mente

paul auster **na impossibilidade das palavras, na palavra por dizer que asfixia, é que eu me encontro **

quinta-feira, maio 5

 

nostalgia. complicações de luas e saliva

eu queria levantar-me às cinco e meia da manhã e ouvir o primeiro chamamento.
pedia para acordar num filme de nuri bilge ceylan com argumento duras. parar o dia na hora amarela. acima de tudo, parar o dia na hora amarela. a marguerite que se danasse mais o seu autoritarismo guionista.


tarkovski3site




encolho-me
como se fechasse uma gaveta para sempre
e ao abrir esta porta encontro-me comigo. a hora mais amarela é esta em que não há sons,
não há asas ruidosas de pássaros acordando o sol.

tudo dorme. eu não. aqui estou ainda quente dos lençóis tentanto recuperar este corpo. regressar
a estes olhos de ver-te, a estas mãos de tocar-te.
poderia dizer
vem comigo
praticar essa arte imemorial de quem espera
não se sabe o quê junto à janela.

inventar-nos aqui
junto a esta janela. com vista para o verde do monte e da lua morrendo suavemente.

aqui
um único raio de luz viaja pelo céu. deixa um rasto de saliva
e como se nessa enorme planura eu desejasse permanecer sigo-o
com os olhos e digo-te
que
o súbito relâmpago dos frutos amadurecendo
iluminará por um instante as águas do jardim
e o alecrim perfumará os noctívagos passos
há muito prisioneiros no barro
onde o rosto se transforma e morre
e já não nos pertence.


porque as histórias assim são
como que uma neblina entrando pelo corpo e há nesta hora gasosa
um torpor que me invade. uma urgência em que me
deixo estar
muito quieta
esperando a maravilha que me há-de invadir.

não sei se o nome que te dou é um nome amassado entre as minhas mãos
como outro diferente barro de outro diferente deus
se te pertence ou é apenas um fruto
amadurecendo aqui neste aroma do dia por nascer.
não sei mesmo se o que escrevo é esta hora amarela, se é essa paisagem de nostalgia
e mar ao fundo. não sei. mas não importa
porque aqui
deambulando os olhos por esta palidez tão muda
eu digo-te

pudesse eu iluminar por dentro as palavras de todos os dias
essas palavras gastas tão gastas
e a marguerite e tu esqueceriam essa outra história
que se refaz a cada despertar. estendo a mão e refaço a lua
refaço esse rasto de saliva
esse beijo de luz que morre na boca do dia. esse é o primeiro chamamento.
o corpo cresce nesta hora pálida. o sangue
não é sangue. é seiva. é seiva orvalhada.

suco de fruto amadurecendo na espera.
e há nos meus olhos uma qualquer secreta alegria.

pertence-nos esta hora de cheiros esta lua que se coa em maresia e verde
esta palidez entre o dia e a noite.
não há nada mais espantoso que inventar este céu fora de margens
esta terra que se derrama em frutos e águas
e se te disser que aqui não têm lugar
nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
porque aqui tudo retorna e se semeia e nossa
pode ser toda a terra que olho por esta janela
a esta hora pálida aqui onde estou,
será que acordas também, às cinco e meia da manhã, para olhar

a paisagem que rebenta sob os meus olhos
e se faz de cabelos carregados de pólenes e de astros

de longos dedos que trespassam a cor
de braços como ramos que abraçam e embalam os corpos.

vem comigo
esta é a hora breve em que tudo acontece e não há dor não há sombra.
não há as vozes das gentes pisando os nomes em que nossos nomes se inscrevem.
não há nada nada que nos possa perturbar a suave paisagem
do coração.

( vem comigo
as palavras nada podem revelar
esqueci-as quase todas onde vislumbro um fogo
pegando fogo ao corpo mais próximo do meu
)
essa luz coada de lua. esse rasto de saliva no céu. as rotas de colisão
entre a minha hora
e a tua hora.


nada mais se move. nada mais. o silêncio está aqui
como luz
e eu deixo-me ficar.
e digo

mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

e eu
indiferente à sonolência da língua

escrevo

acima de tudo quero parar o dia nesta hora pálida.





the lake. mergulhando nas palavras do paulo, do al berto e do josé gomes ferreira. deambulações transversais com tarkovski no horizonte.
Comments:
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
 
para aceder a este blog e ler o que aqui está publicado é necessário querer
 
sair, também é fácil. muito fácil.
 
Foi um prazer ler este the lake.
parabéns
muitos anos de vida
saltamos para outro
amanhã Mamma Mia
 
só hoje li os teus mails...há demasiado mistério e sinto-me cansado..
o que escreveste é muito bonito e o mundo imaginado gosto muito.
porque escolheste aquele post meu em especial?
agradeço-te mas preferia que tivesse sido um original meu
beijos cansados
 
Complicaçoes de salivas.
Have a nice day
 
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