transversal.mente

paul auster **na impossibilidade das palavras, na palavra por dizer que asfixia, é que eu me encontro **

sexta-feira, agosto 26

 

Misticismo


Apetecia-me ser de seda e chagas, como os santos,
Que me brocassem de oiro a dobra do vestido,
E me coroassem de mitras e me espetassem de flechas,
Que me dessem, as mulheres os seus cordões, por promessa,
E mos roubassem, os ladrões, por profanação,
E me retocassem, por ano, o roxo das feridas apetecíveis,
Que o santeiro endoidecesse e me doirasse os cabelos e o sexo
E que os povos, depois, proclamassem o milagre.

Andar em cima do andor a exibir as pústulas e o luxo
Até que um ricaço mandasse pôr em rubis
O meu sangue de esmalte luzidio…
Estar, assim, no pensamento das velhas,
Na cama, com as viúvas,
E nos olhos de todas as mulheres, como um deslumbramento…

Como eu queria ter um padre de estola para me fazer o sermão da festa!
E, findo o incêndio da igreja, depois da propaganda subversiva,
Ficar numa cova de esterco a reluzir os olhos de porcelana
Aliviado do oiro e liberto das feridas
Por causa dos rubis para vender em leilão!

António Pedro

quinta-feira, agosto 18

 

no te salves














no te quedes inmóvil

al borde del camino
no congeles el júbilo
no quieras con desgana
no te salves ahora
ni nunca
no te salves
no te llenes de calma

no reserves del mundo
sólo un rincón tranquilo
no dejes caer los párpados
pesados como juicios

no te quedes sin labios
no te duermas sin sueño
no te pienses sin sangre
no te juzgues sin tiempo

pero si
pese a todo
no puedes evitarlo
y congelas el júbilo
y quieres con desgana

y te salvas ahora
y te llenas de calma
y reservas del mundo
sólo un rincón tranquilo
y dejas caer los párpados
pesados como juicios
y te secas sin labios
y te duermes sin sueño
y te piensas sin sangre
y te juzgas sin tiempo
y te quedas inmóvil
al borde del camino
y te salvas
entonces
no te quedes conmigo




mario benedetti

quarta-feira, julho 13

 












o actor acende a boca
depois, os cabelos.
finge as suas caras nas poças interiores.
o actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
de veado.
de rinoceronte.
põe flores nos cornos.
ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
o actor acende os pés e as mãos.
fala devagar.
parece que se difunde aos bocados.
bocado estrela.
bocado janela para fora.
outro bocado gruta para dentro.
o actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
o actor estala como sal queimado.


herberto helder (excerto de poemacto)









( digo. só me levo a sério assim. quando acendo a boca. ou estou das avessas.
falo. penso. e a palavra ocupa-me.
incendeia-me. acesa palavra no céu da boca. eco de luz própria. não me perguntes
porquê.
não saberia dizer. não saberia dizer. )



há tantas caras
interiores nestas poças fingidas. vejo poças. digo fingidas. bocados que tomo
para deitar fogo. às coisas breves. permaneço. ponho. assim tiro. assim morro. expando-me.
pequeno humano talento. um bocado gruta. para fora.
um bocado estrela. para dentro. germinando
em formas. em sombras. respirando os ritmos. intermitentes mãos. incandescentes
pés. ninguém amassa tão desalmadamente como o actor. as caras. as palavras. o barro das flores. digo
flores. ou digo cornos. ninguém vai tão desabridamente como o actor. para lá dos pés. para lá das mãos. ninguém
põe flores tão breves nos cornos. como o actor. nos veados. nos búfalos. ninguém cavalga
tão desnudadamente como o actor. a palavra. o gesto por dentro. digo gesto. digo na boca. aceso
espanto
precipitando-se
na
verdade. ninguém a come tão vorazmente como o actor. no tempo. no tempo
breve entre uma coisa. e outra. o actor acontece-lhe. o actor é telepático. na invasão galopante
da verdade que o ocupa.
o actor fabrica-se nessa verdade. o actor ri da verdade
que o fabrica. intermitente. como deus. em estado de extremo recolhimento
o actor publicita a personagem deus. inventa-lhe o nome. inventa para o nome o Nome. amplia.
enlouquece. vividamente. publicamente. o actor em acto extremo de poema. o actor incendeia-se no poema.
como sal queimado. há no poema a boca acesa. do actor. da verdade do actor.
digo
em compacto estado de pureza. digo herberto. digo helder.)



( digo não sei. onde começo. onde acabas. )







( pedaços Dele. pedaços de mim. do poema como acto. )





terça-feira, junho 14

 
ora pro nobis






table2








Indivisas, as mãos dividem
entre si o que sobra
da mesa dos lábios.








e agora tu dizias,
ainda hoje preciso do teu abraço para que o mundo pareça um lugar com sentido
para que eu pudesse sorrir
e também eu dizer assim
ainda hoje preciso que o mundo seja o mundo entre os teus braços
para que o meu corpo seja um lugar com sentido








desmond morris, table 2. albano martins

quinta-feira, maio 5

 

nostalgia. complicações de luas e saliva

eu queria levantar-me às cinco e meia da manhã e ouvir o primeiro chamamento.
pedia para acordar num filme de nuri bilge ceylan com argumento duras. parar o dia na hora amarela. acima de tudo, parar o dia na hora amarela. a marguerite que se danasse mais o seu autoritarismo guionista.


tarkovski3site




encolho-me
como se fechasse uma gaveta para sempre
e ao abrir esta porta encontro-me comigo. a hora mais amarela é esta em que não há sons,
não há asas ruidosas de pássaros acordando o sol.

tudo dorme. eu não. aqui estou ainda quente dos lençóis tentanto recuperar este corpo. regressar
a estes olhos de ver-te, a estas mãos de tocar-te.
poderia dizer
vem comigo
praticar essa arte imemorial de quem espera
não se sabe o quê junto à janela.

inventar-nos aqui
junto a esta janela. com vista para o verde do monte e da lua morrendo suavemente.

aqui
um único raio de luz viaja pelo céu. deixa um rasto de saliva
e como se nessa enorme planura eu desejasse permanecer sigo-o
com os olhos e digo-te
que
o súbito relâmpago dos frutos amadurecendo
iluminará por um instante as águas do jardim
e o alecrim perfumará os noctívagos passos
há muito prisioneiros no barro
onde o rosto se transforma e morre
e já não nos pertence.


porque as histórias assim são
como que uma neblina entrando pelo corpo e há nesta hora gasosa
um torpor que me invade. uma urgência em que me
deixo estar
muito quieta
esperando a maravilha que me há-de invadir.

não sei se o nome que te dou é um nome amassado entre as minhas mãos
como outro diferente barro de outro diferente deus
se te pertence ou é apenas um fruto
amadurecendo aqui neste aroma do dia por nascer.
não sei mesmo se o que escrevo é esta hora amarela, se é essa paisagem de nostalgia
e mar ao fundo. não sei. mas não importa
porque aqui
deambulando os olhos por esta palidez tão muda
eu digo-te

pudesse eu iluminar por dentro as palavras de todos os dias
essas palavras gastas tão gastas
e a marguerite e tu esqueceriam essa outra história
que se refaz a cada despertar. estendo a mão e refaço a lua
refaço esse rasto de saliva
esse beijo de luz que morre na boca do dia. esse é o primeiro chamamento.
o corpo cresce nesta hora pálida. o sangue
não é sangue. é seiva. é seiva orvalhada.

suco de fruto amadurecendo na espera.
e há nos meus olhos uma qualquer secreta alegria.

pertence-nos esta hora de cheiros esta lua que se coa em maresia e verde
esta palidez entre o dia e a noite.
não há nada mais espantoso que inventar este céu fora de margens
esta terra que se derrama em frutos e águas
e se te disser que aqui não têm lugar
nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
porque aqui tudo retorna e se semeia e nossa
pode ser toda a terra que olho por esta janela
a esta hora pálida aqui onde estou,
será que acordas também, às cinco e meia da manhã, para olhar

a paisagem que rebenta sob os meus olhos
e se faz de cabelos carregados de pólenes e de astros

de longos dedos que trespassam a cor
de braços como ramos que abraçam e embalam os corpos.

vem comigo
esta é a hora breve em que tudo acontece e não há dor não há sombra.
não há as vozes das gentes pisando os nomes em que nossos nomes se inscrevem.
não há nada nada que nos possa perturbar a suave paisagem
do coração.

( vem comigo
as palavras nada podem revelar
esqueci-as quase todas onde vislumbro um fogo
pegando fogo ao corpo mais próximo do meu
)
essa luz coada de lua. esse rasto de saliva no céu. as rotas de colisão
entre a minha hora
e a tua hora.


nada mais se move. nada mais. o silêncio está aqui
como luz
e eu deixo-me ficar.
e digo

mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

e eu
indiferente à sonolência da língua

escrevo

acima de tudo quero parar o dia nesta hora pálida.





the lake. mergulhando nas palavras do paulo, do al berto e do josé gomes ferreira. deambulações transversais com tarkovski no horizonte.

segunda-feira, maio 2

 

rosamundo

yoni-1






A cúpula, a cópula.
O nome
da rosa.








albano martins

sexta-feira, abril 29

 

bacelo

minha puta
meu coração
amo-te como quem caga
empapa o cu na tempestade
rodeada de relâmpagos
é o raio que te fode
brada na noite um louco
entesoado como um cervo
ó morte o cervo sou eu
devorado pelos cães
a morte ejacula em sangue






royo4

















georges bataille, o bordel da danaide, in qual é a minha ou a tua língua, ( cem poemas de Amor de outras línguas ), organização de jorge sousa braga, para asssírio & alvim.



( eros.tanatos. transgressão. )

quinta-feira, abril 28

 

a sombra de luz

se eu agora te disser que a minha é tua intenção.
escrever a luz e depois ir escurecendo.
como se o corpo por dentro se fizesse lume
à vez
brando
à vez vivo
recolhendo em borbotos essas labaredas de mãos
essas línguas de olhos
dançando
bruxuleando rente à pele. de repente até podíamos
apagar tudo. e deixar apenas uma faúlha.
uma incorpórea faúlha. por exemplo uma palavra. ou apenas um hífen
entre mim. e ti.

e repousar como cinzas. pó-no-pó-do-sangue. mineral
outro. vegetal outro. escavar no corpo
a vontade de nos refazermos. este leito fundo
aqui entre a terra e o nosso corpo
é quente. o remasnecente quente desse amplexo de luz
em que as nossas formas se consumiram.

e sombra é
esta nova forma crescendo e dando um significado
inteiramente novo ao dia. escurecemos
como luz.
fertilizando o dia. escurecemos como luz.

images

como sombra do segredo-
o fogo fátuo nas nossas bocas- essas mesmo
frutos dependurados de uma qualquer árvore. numa qualquer colina. num qualquer lugar.
de um tempo anterior. que importa. o vento nos faz sempre
mudar. ora pomo
ora bago
ora apenas minúsculo e frágil beijo
polinizamos a verdade
com novos nomes



arde essa árvore no princípio do mundo. e

no príncipio escreves luz. e depois vamos escurecendo.



assim seja.








de madalena a nuno. intenções cruzadas.

quinta-feira, abril 21

 

demora tudo

imagesbasquiatlol




A pasta de dentes,
o gel de banho,
a manteiga, o pão de forma,

quando se vive sozinho,

a botija de gás,
o terço entre os dedos,
o calgonite,

demora tudo,

o esfregão da louça,
o fim-de-semana,
o meio-do-mês,
as prestações do carro,

muito tempo,

o aperto do laço,
as dores do período,
o absinto, a ginginha,
as pilhas do transistor,
o alprazolam,
a falta que me fazes,

a acabar.




a melopeia é do luis. a pincelada do jean michel basquiat

quarta-feira, abril 20

 

It's All Right, Ma...

Está tudo bem, mãe,
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,
tenho muito sangue.

Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço), deixaste-me
pouco espaço para tanta existência.

Lembranças a menos
faziam-me bem
e esquecimento também
e sangue e água a menos.

Teria cicatrizado
a ferida do lado,
e eu ressuscitado
pelo lado de dentro.

Que é o lado
por onde estou pregado,
sem mandamento
e sem sofrimento.

Nas tuas mãos
entrego o meu espírito,
seja feita a tua vontade,
e por aí adiante.

Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão.

Manuel Anónio Pina

segunda-feira, abril 11

 

malmequer: bem te quero

109780



** Querida. Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei: vou-te escrever.
Mas não te quero amar no tempo em que te lembro. Quero-te amar antes, muito antes. É quando o grande acontece. E não me digas diz lá porquê. Não sei. O que é grande acontece no eterno e o amor é assim, devias saber. Ama-se como se tem uma iluminação, deves ter ouvido. ou se bate forte com a cabeça. Pelo menos comigo foi assim. Ou como quando se dá uma conjunção de astros no infinito, deve vir nos livros.
Ou mais provavelmente esse tempo nunca pôde existir. Vou pensar melhor a ver se eu próprio entendo. Ponho-me a lembrar o que passou e o que me lembra é só a tua presença forte ao pé de mim. E depois acabou. Deves ter achado que era demais e então acabou. Foste para não sei onde e estás lá fixa quando te lembro...

..Mas agora não quero saber. Nem da tua morte em plano suavemente inclinado. Nem de quando, de quando quê? nem de nada. Não sei amar-te aí, é o caso. Porque só se pode amar na perfeição, depois o amor perde o nome e é outra coisa. Devias ter morrido quando te conheci para ser impossível morreres. Devias ser tudo então para não haver mais nada depois. Esgotares o teu possível para não haver mais possível. Mas houve, acabou-se. Os deuses, como sabes, amam os que morrem jovens porque o absoluto é a sua medida. É assim. Que erro, querida, sermos humanos e fraccionários.**






e diz lá porquê. diz. que é como quem pergunta
daqui até ao infinto em quanta luz se mede o teu amor. diz. vá lá diz. ohhhh :,,(

e diz lá porquê. diz. se eu houvesse em flor
que cheiro me cheiravas? diz.
se eu houvesse assim em lápis de cores todas arrumadinhas numa caixa caran d'ache
de que folhas m'imaginavas. vá lá diz...
e se o meu corpo fosse um meio de transporte qual o
andante que compravas. vá diz... e em pronúncia estranha
se soletrasses o meu nome
era rosa ou madalena maria
ou pucca girl
era eu ou era marta
era blimunda ou era eu
era eu ou era eu. se em cruzinhas me bordasses
que lençol me embrulharia. queres dizer-me. não. ohhhhh...

e se eu fosse um mapa
e de pontinhos me dissesses
que pontinho descolavas. e se na lua me pusesses em olhos
ou eu houvesse em água lá em marte
que shot tu davas. e em graus celsius ou de richter
o teu desejo de mim
se medisse em sismos
que risquinhos tu fazias. vá lá, olha que faço beicinho...

e se, olha desculpa, mas é que eu sou tão piegas tão piegas
e quero mesmo saber
se eu houvesse assim
em champô dois em um ou em pacotes da nestlé
que sabor tu compravas? se eu houvesse por aí
em ruas de cidade como lisboa
filas de icês dezanove
pilhas e pilhas de processos
reciclados no papelão
ou em
bares manhosos de putas e de sailors
tóquios jamaicas after hours
esgotos a céu aberto
governantes sem pasta na sombra
sombra de batinas a repique
falências e hospitais essepontoa
leucemias e blocos de esquerda sem ar condicionado
etiquetas de saldos e óculos raibane de caracasvelos
ilhas indonésias e tsunamis em estação alta
santas de ladeira a pregar às laranjinhas
ou então se viesse empacotada num contentor
cheia de ucranians por todo o lado
ou portas que chiam e emperram
e da madeira me soprasse com o fétido do jardim
diz lá e se eu por acaso, só por acaso, fosse frígida
e não soubesse
remendar um ovo estrelado
e tirasse com a gilette os pelos do buço
ou se me deitasse sempre
com o creme esparramado de pepino e algas
e comprasse no celeiro
aqueles bolinhos de arroz e te ditasse somos macrobióticos
ou então num suponhamos
que eu além de mamas caídas
tinha um anel no estomâgo pra acabar de vez
com a bulímica existência de table dinner
ou se pelo contrário não gostasse do kama sutra
e te dissesse assim isso é pecado mortal
e em abortos clandestinos dias e dias de salário período em atraso
escrevesse neste blogue sobre
meninos pios enrabados bandas desafinadas a reboque
de maestros de fraque
como channel fo(u)r disney em canal dezoito mimetizada

ou então
suprema realidade perguntativa
eu houvesse numa ratazana
que em primeiro roesse a carne
e depois te viesse nos ossos

diz-me diz-me ainda me amavas?

*é tão fácil o amor* em doses suaves de amaciador
é tão fácil o amor em pink lotions da lancôme
é tão fácil o amor em arrumos de ikea
é tão fácil o amor em coordenados do gato preto
é tão fácil o amor em visa electron
é tão fácil o amor desfolhado na fnac
é tão fácil o amor quando se tem um smart
é tão fácil o amor quando não há multas
por excesso de velocidade
é tão fácil o amor quando se formata uma pizza
é tão fácil o amor se preferires a marca branca
é tão fácil o amor enquanto o marco polo cantar
é tão fácil o amor em happy meals e roupas à medida
no avesso da zara e em colors da bennetton
é tão fácil o amor quando se diz eu amo-te
benzemo-nos com água pia
recitamos um credo natalino
e deitamo-nos com o mourão entre as pernas apertadas
a cartilha decorada
de uma vida tê dois em lofts de lusitanas brandas paixões

CORO ( vezes dois )
eu sei
eu sei


é tão fácil amor em dias e dias de sol
é tão fácil o amor uma cabana e um labrador
é. fácil. o amor. é?
é tão fácil o amor
é tão
fácil
o
a
m
m
o
r
pingar-nos chão como quando menstruo
e vem fora de horas
e não tenho um pensinho
daqueles que cabem na mão

e então eu pergunto-me bem me quer bem me quer
e pétala a pétala
percorro
os teus lábios
o teu corpo
poro a poro te chupo sorvo bebo
como mordo arranho
monto cavalgo disparo
entro saio e deslizo
venho vou e aperto
e expludo
a mil à hora o coração
na boca a bater
e o suor cola-me o meu ao teu ventre e depois
subimos um pelo outro como se sobe a escada
para dentro de um avião
e se parte de bilhete e malas
para esse paraíso de praias eternas
areias escaldantes é verão água cálida água límpida
está tudo deserto e somos só nós que silêncio que paz e ...
claque. o melhor dos reality shows és tu. eu uma survivor. uma brother
uma celebrity
em passeio pela tua fama recebo-te como óscar. and now
o espectáculo must go in

vens vindo vens vindo
em marés de sal e de sémen. e fico espantada
porque afinal eu sabia. eras tu. tu mesmo. mesmo que houvesses como eu.
ou em pensinhos da evax.


é tão fácil o amor. quando humanos (re)fraccionários
nos assinamos assim
forever young
forever absolutamente young. a quem os deuses amam. e a sorte protege.



** vergílio ferreira em nome da terra **, com vontade de beber um shot. o pedro também queria...

quinta-feira, abril 7

 

interior

mario_botas2



Carne assaltada
da plenitude do um e do outro.
E aqui cada coisa, como se fosse a última
a ser dita: o som de uma palavra
casada com a morte, e a vida,
este meu dom
de desaparecer.

Persianas fechadas. O pó
de um antigo eu, esvaziando o espaço
que não ocupo. Esta luz
que cresce ao canto do quarto,
para onde o todo do quarto
se deslocou.

A noite repete-se. Uma voz que me fala
de insignificâncias apenas.
Nem sequer de coisas - mas dos seus nomes.
E onde não há nomes -
de pedras. Tumulto de cabras
trepando às aldeias
do meio-dia. Um escaravelho
devorado na esfera
do seu próprio estrume. E ao longe um enxame
de borboletas violáceas.

Na impossibilidade das palavras,
na palavra por dizer
que asfixia,
é que eu me encontro.





paul auster, in Poemas Escolhidos, tradução de Rui Lage, Quasi, 2002.
e mário botas

     

This page is powered by Blogger. Isn't yours?